Toque de Chef
Coaching ExecutivoCap. 4 de 20

Capítulo 4

Metas: SMART, mas também saborosas

“Uma meta sem desejo é como um prato sem sal: pode-se engolir, mas jamais se degusta.” — Anônimo

A cozinha de um restaurante com estrela Michelin, às seis da manhã, tem a precisão de um laboratório e a alma de uma festa que ainda não começou. O chef ajusta o fogo sob uma panela de fundo grosso onde cebolas douram em manteiga, lentamente, até que soltem o perfume doce e denso que anuncia o molho da noite. Ao lado, um jovem cozinheiro corta vegetais em cubos milimétricos, repetindo o gesto como se cada fatia fosse uma promessa. Não há pressa, mas há urgência. Cada ingrediente sabe seu destino, cada tempo de cozimento foi calculado em dezenas de tentativas anteriores. E, no entanto, o chef sabe que a execução perfeita de uma técnica não basta. Ele pode seguir a receita à risca, mas se o prato não despertar desejo em quem o prova, se a primeira garfada não provocar um fechar de olhos involuntário, todo o esforço se dissipa. É assim com as metas que traçamos nos processos de coaching executivo. Podemos construí-las com a mais rigorosa metodologia SMART – específicas, mensuráveis, atingíveis, relevantes, temporais – e ainda assim elas podem morrer na geladeira, esquecidas como sobras de uma refeição que ninguém quis repetir. O erro não está na estrutura, mas na ausência de um elemento essencial: o sabor. Uma meta sem desejo é dieta, algo que se impõe por obrigação, e ninguém segue dieta por muito tempo sem um prazer que a justifique.

O chefe de cozinha não pergunta apenas “o que vamos cozinhar hoje?”. Ele pergunta “o que nosso convidado deseja provar?”. No coaching executivo, a pergunta análoga seria: o que, nesta meta, faz o coração do cliente acelerar? Não me refiro a um entusiasmo superficial, daqueles que evaporam na primeira dificuldade, mas a um desejo enraizado, que sustenta o cozimento lento de uma carreira. Certa vez, trabalhei com uma diretora de marketing que definiu como meta “aumentar em 20% a participação no mercado em 18 meses”. A meta era SMART, mas ela a pronunciava com a mesma energia com que se lê a bula de um remédio. Quando exploramos o que realmente a motivava, descobrimos que ela desejava ser reconhecida como uma líder que transforma equipes, não apenas números. Reformulamos a meta: “criar um programa de mentoria interna que, em paralelo ao crescimento de market share, desenvolva três novos líderes em 18 meses”. O mercado continuava sendo medido, mas agora o desejo – o sabor – vinha do legado humano. Ela passou a falar da meta com brilho nos olhos, como quem descreve o prato que vai servir no jantar dos sonhos. A lição é que o desejo não é um adorno da meta; é o caldo que a mantém viva durante a redução. Porque metas levam tempo, e o tempo exige paciência. O chef sabe que um molho não se apressa; ele reduz, concentra sabores, exige que se esteja presente, mexendo, provando, ajustando. Sem desejo, o executivo abandona a panela antes do ponto. Ele se distrai com outras tarefas, perde o foco, e a meta vira um resíduo queimado no fundo da panela.

Há quem defenda que metas devem ser puramente racionais, livres de emoção, como se o desejo fosse um contaminante. Discordo. A racionalidade define o caminho, mas a emoção fornece a energia para percorrê-lo. O problema é que muitos confundem desejo com capricho. Capricho é a vontade de comer sobremesa antes do jantar; desejo é a fome que nos faz cozinhar um prato complexo por horas. No coaching, ajudo os clientes a distinguir um do outro perguntando: se você soubesse que ninguém jamais descobrirá que você alcançou essa meta, ainda assim a perseguiria? Se a resposta for sim, é desejo. Se for não, é capricho ou aprovação externa. Certa vez, um executivo financeiro definiu como meta “ser promovido a CFO em três anos”. Quando fiz a pergunta, ele hesitou. Percebeu que o que realmente queria era autonomia para criar estratégias de investimento inovadoras, não o título. Reformulamos a meta para “desenvolver e implementar um novo modelo de alocação de ativos que gere 15% de retorno adicional em três anos”. A promoção veio como consequência, mas o desejo genuíno – o sabor – estava na criação. A meta tornou-se um prato que ele tinha vontade de cozinhar todos os dias.

Outro ponto crucial é que o desejo não é estático. Ele evolui com o cozimento. O chef ajusta o tempero ao longo do preparo; o executivo precisa revisitar suas metas periodicamente para verificar se ainda despertam fome. Uma meta que antes parecia irresistível pode, com o tempo, tornar-se insípida. Não por fraqueza, mas porque o paladar muda. O profissional amadurece, seus valores se reordenam, o contexto se transforma. Insistir em uma meta que perdeu o sabor é como servir um prato requentado várias vezes. O coaching executivo eficaz inclui check-ins regulares para reavaliar o desejo. Pergunto: ainda há fome? O que, neste prato, você mudaria para que volte a ter vontade de comê-lo? Às vezes, basta um novo ingrediente – uma parceria inesperada, um prazo ajustado, um indicador mais significativo – para reacender o apetite. Outras vezes, é preciso abandonar a receita e começar do zero. E isso não é fracasso; é maestria culinária. O chef que insiste em um prato que ninguém pede está fadado a cozinhar para paredes vazias.

Por fim, lembro que o desejo não elimina a disciplina; ele a alimenta. A meta SMART é a técnica de preparo; o desejo é o ingrediente secreto que faz o prato ser memorável. Um sem o outro resulta em comida sem alma ou em caos criativo. No coaching, ensino que a meta deve ser escrita com a mão esquerda – a da razão – e provada com a língua – a da emoção. Um executivo que aprende a equilibrar esses dois elementos não apenas alcança resultados; ele os saboreia. E, ao final, não olha para trás com a sensação de ter cumprido uma obrigação, mas com a gratidão de quem fez uma refeição inesquecível.

Na próxima vez que definir uma meta, antes de verificar se ela é SMART, pergunte-se: ela me dá água na boca? Se a resposta for não, rasgue o papel e comece de novo. Não há tempo a perder com metas que não alimentam a alma. O mercado é uma cozinha implacável, onde apenas os pratos que despertam desejo sobrevivem. E, no final, não importa quantos estrelas Michelin você acumule; o que fica é a lembrança de um sabor que valeu a pena provar. Porque meta sem desejo é dieta, e dieta, todos sabem, termina sempre no buffet livre do arrependimento.

Meta sem desejo é dieta — ninguém segue.

Receita executável

Menu-degustação personalizado

Assim como uma meta precisa de desejo para ser seguida, um menu-degustação precisa despertar curiosidade em cada etapa. Este prato é um convite a cozinhar com intenção, equilibrando técnica e emoção.

Rendimento
rende 4 porções
Tempo
40 min

Ingredientes

  • 500 g de filé-mignon em medalhões
  • 200 g de cogumelos shitake frescos fatiados
  • 2 colheres (sopa) de manteiga sem sal
  • 1 colher (sopa) de azeite de oliva extravirgem
  • 2 dentes de alho laminados
  • 1 ramo de alecrim fresco
  • 100 ml de vinho tinto seco (tinto encorpado, como Cabernet Sauvignon)
  • 200 ml de caldo de carne caseiro ou de boa qualidade
  • 1 colher (chá) de mostarda Dijon
  • Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
  • 200 g de batatas bolinha cortadas ao meio
  • 1 colher (sopa) de mel
  • Suco de meio limão
  • Folhas de rúcula para decorar

Preparo

  1. 011. Tempere os medalhões de filé-mignon com sal e pimenta-do-reino generosamente. Deixe descansar por 10 minutos enquanto prepara os outros ingredientes. Esse tempo é como a reflexão inicial de uma meta: essencial para que os sabores se assentem.
  2. 022. Em uma frigideira grande, aqueça o azeite e 1 colher de manteiga em fogo alto. Sele os medalhões por 2 minutos de cada lado, até formarem uma crosta dourada. Retire-os e reserve em um prato. O selar é o compromisso inicial com a meta: rápido, intenso e que define o tom.
  3. 033. Na mesma frigideira, reduza o fogo para médio e adicione a manteiga restante. Refogue o alho e o alecrim por 1 minuto, até perfumar. Acrescente os cogumelos e refogue por 3 minutos, mexendo ocasionalmente. Eles devem começar a soltar água e depois dourar. Adicione uma pitada de sal. Esse processo é como o desenvolvimento da meta: requer atenção, paciência e ajustes constantes.
  4. 044. Despeje o vinho tinto na frigideira e raspe o fundo para soltar os resíduos da carne (deglaçar). Deixe reduzir pela metade, cerca de 2 minutos. Junte o caldo de carne, a mostarda, o mel e o suco de limão. Misture bem e deixe ferver suavemente por 3 minutos, até o molho engrossar ligeiramente. Prove e ajuste sal e pimenta. O molho é a essência da meta: concentrado, equilibrado e com um toque de acidez que corta a riqueza.
  5. 055. Enquanto o molho reduz, cozinhe as batatas bolinha em água fervente com sal por 8 minutos, até ficarem macias mas firmes. Escorra e reserve. Elas representam os pequenos marcos ao longo da jornada: simples, mas necessários para sustentar o prato principal.
  6. 066. Volte os medalhões à frigideira com o molho. Adicione as batatas cozidas. Cozinhe em fogo baixo por 2 minutos, virando a carne para envolver no molho. Desligue o fogo. Esse aquecimento final é a revisão da meta: um momento de integração de todos os elementos.
  7. 077. Sirva os medalhões sobre as batatas, regue com o molho e os cogumelos. Decore com folhas de rúcula fresca. O contraste da rúcula levemente amarga com o molho adocicado e a carne suculenta é o equilíbrio perfeito entre técnica e desejo. Cada garfada deve lembrar que uma meta, quando bem temperada, se torna inesquecível.