Toque de Chef
Coaching ExecutivoCap. 16 de 20

Capítulo 16

Coach-terapia: onde fica a fronteira

"A cozinha não é um divã, e o coach não é um terapeuta. Mas ambos sabem que o fogo precisa de ar para queimar." — anônimo

A primeira coisa que notei foi o som. Não o chiado da manteiga na frigideira, mas o silêncio que o antecede. O silêncio de quem espera a cebola dourar sem pressa, de quem sabe que o fogo não se apressa com lágrimas. Naquela noite, diante do fogão, eu cortava cenouras em rodelas finas, quase translúcidas, enquanto o caldo de legumes borbulhava ao fundo. A faca deslizava sobre a tábua com a precisão de um bisturi. Lembrei-me de uma sessão de coaching na semana anterior, quando o executivo, um homem de terno cinza e olhos de quem carrega o mundo, me disse, depois de uma longa pausa: "Preciso de ajuda. Não sei mais o que sinto." A frase ficou suspensa no ar como o vapor que subia da panela. Eu sabia que ali havia uma fronteira, um limite que não se atravessa sem tropeçar. Na cozinha, a linha entre o caldo ralo e o caldo encorpado é fina: um minuto a mais de fervura, uma pitada a menos de sal, e o prato desaba. O mesmo vale para a conversa que se pretende curadora sem ser clínica. O coach não é um terapeuta, assim como a panela não é um consultório. Mas ambos lidam com o fogo — um fogo que queima, transforma, alimenta. E é preciso saber quando abaixar a chama.

Durante anos, vi colegas de profissão se perderem nesse limbo. Certa vez, um coach recém-formado me confessou, entre goles de café frio, que se sentia "quase um psicólogo" depois de ouvir o relato de um cliente sobre a infância difícil. Ele usava palavras como "cura" e "trauma" com a desenvoltura de quem folheia um manual de autoajuda. Eu o observei por um instante, pensando na diferença entre cozinhar um risoto e preparar uma sopa de remédios. O risoto exige atenção, paciência, caldo quente adicionado aos poucos, mas não promete sarar uma pneumonia. A sopa, por outro lado, se for de galinha com legumes, pode aquecer o corpo, mas não substitui o antibiótico. O coach que se aventura no território da terapia age como o cozinheiro que tenta curar uma febre com um prato bem temperado: o sabor é bom, mas a febre persiste. E o pior: o cliente, iludido pelo aroma, pode abandonar o tratamento médico. Lembro de um caso concreto: um diretor financeiro, chefe de uma equipe de quarenta pessoas, vinha às sessões com uma agenda de metas de carreira. Mas, aos poucos, as conversas derivaram para o divórcio, a ansiedade noturna, o medo de não ser amado. Ele confundia o espaço do coaching com um confessionário. Eu, como coach, precisei recuar, como quem retira a panela do fogo antes que o leite derrame. Expliquei que minha cozinha servia pratos de desenvolvimento profissional, não receitas para a alma ferida. Sugeri um terapeuta, e ele sentiu como se eu tivesse fechado a porta na cara dele. Mas não: a porta continuava aberta para o que era meu ofício. A confusão de papéis é perigosa porque cria dependência. O cliente começa a achar que o coach tem a chave de todos os seus lockers emocionais. E o coach, lisonjeado, assume o posto de salvador, como o chef que acredita que seu prato pode curar a tristeza. Não pode. A comida conforta, mas não extingue a dor. Assim também o coaching: ele pode clarear o caminho, ajudar a decifrar mapas, mas não escava as fundações psíquicas. Há uma linha tênue, reconheço. Em certos momentos, o cliente chora, e o silêncio do coach é terapêutico. Mas o choro não é o objetivo; é um subproduto. O objetivo é o movimento, a ação, o cardápio de possibilidades que se desenha a partir dali. Uma metáfora que uso com frequência é a do caldo que se apura. Apurar um caldo significa cozinhá-lo lentamente, reduzir, concentrar sabores. O coach ajuda o cliente a apurar suas questões, a destilar o essencial do acessório. Mas esse caldo não é um remédio; é um ingrediente. O cliente, então, leva o caldo para sua própria cozinha e decide o que fazer com ele: um risoto, uma sopa, ou simplesmente um copo quente numa noite fria. A terapia, por outro lado, seria como uma farmácia: lá se encontram os medicamentos, as dosagens, os diagnósticos. Se o coach se mete a farmacêutico, arrisca a overdose. O que fazer, então, quando o cliente pede que você atravesse a fronteira? A resposta está na receita, na disciplina do método. O coach não interpreta sonhos, não investiga o passado infantil, não prescreve comportamentos. Ele pergunta: "O que você quer fazer com isso agora?" — como quem pergunta: "Você quer que eu adicione mais sal ou prefere um toque de limão?" O cliente é o chef da própria vida; o coach, apenas o assistente que corta os legumes. Mas há uma armadilha sutil: o conforto. O coach que oferece muito aconchego, que valida cada lágrima sem devolver o foco à ação, cria uma zona de conforto que vicia. O cliente volta, não para cozinhar, mas para ser alimentado. E, aí, o coaching vira uma mamadeira. Já vi isso acontecer com uma executiva de RH que passou seis meses em sessões semanais sem implementar uma única mudança. Ela dizia: "Aqui me sinto segura." Segurança não é o prato principal do coaching; o prato principal é o movimento, mesmo que desconfortável. A cozinha do coaching deve ter cheiro de trabalho, não de berço. O calor do acolhimento é necessário, mas não pode cozinhar o cliente em banho-maria para sempre. Há um momento em que se tampa a panela e se deixa ferver. Nesse ponto, o coach que atravessa a linha da terapia geralmente o faz por duas razões: vaidade ou medo. Vaidade de achar que pode curar; medo de parecer frio se não acolher todas as dores. Ambas são compreensíveis, mas ambas estragam o caldo. Um bom coach é como um bom cozinheiro: sabe quando o prato está no ponto e quando é hora de servir. E sabe, também, quando o cliente precisa de outro tipo de cozinha, uma que tenha divã no lugar de bancada. A humildade é o sal dessa profissão: reconhecer os próprios limites é o que dá sabor à relação. E, no fim, o que fica não é a promessa de cura, mas a certeza de que a conversa, bem temperada, pode alimentar por dias.

A fronteira entre coaching e terapia não é um muro, mas uma linha de giz na bancada da cozinha. O coach pode, sim, tocar em feridas, desde que não tente suturadas. Pode oferecer um caldo quente, desde que não finja ser remédio. O Menu de Conforto que proponho aqui não promete curar nada, mas alimenta o que precisa ser nutrido para a jornada seguinte. Quando o cliente se levanta da sessão, não deve sentir que foi curado, mas que aprendeu a cozinhar um pouco melhor o próprio prato. E, se um dia a dor for grande demais, que saiba onde encontrar o verdadeiro consultório — aquele onde o bisturi não é uma faca de chef, e o divã não é uma tábua de cortar legumes. A cozinha alimenta; o consultório cura. Confundir os dois é queimar o jantar.

O coach não interpreta sonhos, não investiga o passado infantil, não prescreve comportamentos. Ele pergunta: 'O que você quer fazer com isso agora?' — como quem pergunta: 'Você quer que eu adicione mais sal ou prefere um toque de limão?'

Receita executável

Menu de Conforto — Sem Prometer Cura

Um risoto cremoso de cogumelos que aquece sem iludir: cada garfada é um passo à frente, não uma fuga para o colo da mãe.

Rendimento
rende 4 porções
Tempo
40 min

Ingredientes

  • 400 g de arroz arbóreo
  • 200 g de cogumelos frescos variados (shiitake, shimeji, Paris)
  • 1 cebola média picada em cubos finos
  • 2 dentes de alho laminados
  • 150 ml de vinho branco seco
  • 1,2 L de caldo de legumes caseiro (ou de boa qualidade), mantido quente
  • 50 g de manteiga sem sal
  • 100 g de queijo parmesão ralado na hora
  • Sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
  • 2 colheres de sopa de azeite extravirgem
  • Ramos de tomilho fresco para finalizar

Preparo

  1. 011. Lave os cogumelos rapidamente sob água corrente e seque com papel-toalha. Corte os maiores em fatias de 0,5 cm; deixe os menores inteiros. Reserve.
  2. 022. Numa panela grande e funda (de preferência de ferro ou antiaderente), aqueça o azeite em fogo médio. Adicione os cogumelos e refogue por 5 minutos, até dourarem levemente. Tempere com uma pitada de sal e pimenta. Retire os cogumelos da panela e reserve.
  3. 033. Na mesma panela, derreta 25 g de manteiga em fogo médio. Acrescente a cebola picada e refogue por 3 minutos, até ficar translúcida. Junte o alho e refogue por mais 1 minuto, tomando cuidado para não queimar.
  4. 044. Adicione o arroz arbóreo e mexa por 2 minutos, até que os grãos fiquem levemente translúcidos nas bordas. Despeje o vinho branco e mexa até que evapore quase completamente.
  5. 055. Comece a adicionar o caldo quente, uma concha de cada vez (cerca de 200 ml por vez). Mexa constantemente em movimentos circulares, esperando que o líquido seja absorvido antes de adicionar a próxima concha. Esse processo leva cerca de 18 a 20 minutos. O arroz deve ficar al dente, cremoso, mas sem empapar.
  6. 066. Na última adição de caldo, junte os cogumelos reservados e misture delicadamente. Desligue o fogo.
  7. 077. Incorpore o restante da manteiga (25 g) e o queijo parmesão ralado. Mexa vigorosamente para emulsionar e obter uma textura aveludada. Ajuste o sal e a pimenta.
  8. 088. Sirva imediatamente em pratos fundos, finalizando com ramos de tomilho fresco e, se desejar, lascas de parmesão extra. O risoto não espera: coma enquanto a cremosidade abraça os sentidos.