A chama do fogão a gás dança em azul e laranja, refletindo-se no aço inox da bateria de panelas. São cinco da tarde, e a cozinha do restaurante ferve em silêncio concentrado. Sou eu, o chef, e mais dois auxiliares. Sobre a bancada de mármore frio, um cacho de uvas escuras, quase pretas, aguarda. Elas vêm das encostas de Ein Gedi, onde o sol e o sal do Mar Morto criam um terroir de extremos. Pego uma, aperto entre os dedos: a pele estala, o sumo escorre, doce e ácido ao mesmo tempo. Ali está a lição de Salomão, o rei que, quando Deus lhe ofereceu o que quisesse, não pediu ouro, nem glória, nem a cabeça de seus inimigos. Pediu um coração que soubesse ouvir. Nesta cozinha, onde cada ingrediente é uma escolha, cada temperatura um risco, essa sabedoria se traduz em gestos. O vinho apurado que pretendo fazer não é um molho qualquer: é a redução da própria uva, cozida lentamente com especiarias, até se transformar em essência. É preciso paciência, é preciso saber o que se quer antes de acender o fogo. Pedir a coisa certa é meia sabedoria; a outra metade é não se distrair com os brilhos falsos.
Salomão herdou um reino em paz, mas com templos por construir, alianças por firmar, povos por governar. Quando o Senhor apareceu em Gibeão, numa noite de sonhos, a oferta foi generosa: pede o que quiseres. O jovem rei poderia ter pedido longa vida, riqueza, a morte de seus adversários. Mas ele escolheu um coração sábio e inteligente, para discernir o bem e o mal. Deus se agradou tanto que lhe deu também o que não pediu: riqueza e glória. Na cozinha, quantas vezes me pego desejando facas mais afiadas, panelas mais caras, um sous-chef mais rápido? A sabedoria de Salomão me lembra que o essencial é a habilidade de decidir o que entra na panela, e o que fica de fora. O vinho apurado, por exemplo: para fazê-lo, preciso das uvas certas, de um bom vinho tinto seco, de mel, cravo, canela, gengibre e noz-moscada. Mas não posso colocar tudo de uma vez. Cada especiaria deve ser temperada no momento exato, sob pena de amargar o conjunto. É como governar: a justiça não é distribuir bens igualmente, mas dar a cada um o que lhe é devido, no tempo certo. O texto bíblico conta que Salomão escreveu três mil provérbios e mil e cinco cânticos. Falou de árvores, do cedro ao hissopo, dos animais, das aves, dos peixes. Era um homem que observava a natureza e extraía dela ensinamentos. Na cozinha, somos todos naturalistas: o ponto da carne, a cor do caramelo, o aroma do alecrim queimado — tudo é sinal. Mas o conhecimento sem sabedoria é como um molho salgado demais: ninguém consegue aproveitar. Houve um episódio em que duas mulheres disputavam um bebê, e Salomão mandou partir a criança ao meio. A falsa mãe aceitou; a verdadeira preferiu perder o filho a vê-lo morto. A sabedoria do rei foi ler o coração por trás das palavras. Na cozinha, isso se chama sensibilidade: saber quando um cliente pede um prato bem passado, mas na verdade quer suculência; quando um estagiário diz que entendeu, mas precisa de demonstração. A liderança, como a culinária, exige discernimento. E exige também humildade, porque Salomão, apesar de toda a sabedoria, no fim da vida se deixou levar por mulheres estrangeiras e seus deuses. O vinho apurado, se reduzido demais, vira caramelo queimado, amargo. O excesso de confiança estraga o líder. Há quem critique a abordagem de pedir sabedoria em vez de riqueza, dizendo que o pragmatismo exige recursos. Mas a história mostra que a riqueza sem direção é efêmera. Quantos chefs abrem restaurantes badalados, mas não sabem gerir equipe, e em dois anos fecham as portas? O pedido de Salomão foi um investimento de longo prazo: ele plantou a raiz, e a árvore cresceu. O vinho apurado leva tempo no fogo baixo, mexendo de vez em quando, sem pressa. A lide com a panela é um exercício de paciência e foco. E no meio do processo, quando o líquido começa a engrossar e o aroma invade a cozinha, vem a tentação de acelerar, aumentar o fogo, adicionar mais açúcar. É o canto da sereia dos resultados rápidos. Mas a sabedoria consiste em manter o ritmo, confiar no método. O sabor final não mente.
O vinho apurado está pronto. Despejo-o num pote de cerâmica, e ele escorre como mel escuro, brilhante. As uvas de Ein Gedi cumpriram seu propósito: não foram comidas in natura, mas transformadas em algo que dura, que pode ser guardado para um dia de festa ou de necessidade. Assim é a sabedoria: ela não se consome no momento; ela se acumula, se refina, e se oferece quando mais precisamos. Salomão pediu a coisa certa, e por isso seu nome ecoa séculos depois. Eu, na minha cozinha, aprendo que cada escolha — um ingrediente, uma palavra, um gesto — é uma oportunidade de exercer essa sabedoria. O que você pediria, se Deus lhe oferecesse o que quisesse? Antes de responder, olhe para o fogo, sinta o peso da colher de pau na mão. A resposta, às vezes, está no que você não pede. Pois a sabedoria não é ter todas as respostas, mas saber qual pergunta fazer. E a pergunta certa, servida no tempo certo, vale mais que todo o vinho do mundo.
"A sabedoria não é ter todas as respostas, mas saber qual pergunta fazer."
Receita executável
Vinho apurado das vinhas de Ein Gedi
Este vinho apurado é uma redução que concentra a doçura das uvas e o calor das especiarias, perfeito para regar carnes assadas ou queijos curados. Ele exige paciência e atenção — qualidades que Salomão teria apreciado.
- Rendimento
- rende 4 porções
- Tempo
- 40 min
Ingredientes
- 500 g de uvas escuras (tipo rubi ou cabernet)
- 200 ml de vinho tinto seco (ex.: Cabernet Sauvignon)
- 100 g de açúcar mascavo
- 1 pedaço de 3 cm de gengibre fresco, descascado e fatiado
- 2 paus de canela
- 4 cravos-da-índia
- 1 pitada de noz-moscada ralada na hora
- Suco de 1 limão siciliano
Preparo
- 011. Lave as uvas e retire os cabinhos. Coloque-as em uma panela média e amasse levemente com as mãos ou um espremedor de batatas para liberar o suco.
- 022. Adicione o vinho tinto, o açúcar mascavo, o gengibre, os paus de canela, os cravos e a noz-moscada. Misture bem.
- 033. Leve ao fogo alto até ferver. Assim que ferver, reduza o fogo para o mínimo (fogo baixo) e deixe cozinhar sem tampar por cerca de 30 minutos, mexendo de vez em quando com uma colher de pau.
- 044. Após 30 minutos, a mistura deve ter reduzido pela metade e adquirido consistência de calda leve. Retire os paus de canela e os cravos com uma pinça.
- 055. Passe a mistura por uma peneira fina sobre uma tigela, pressionando com as costas de uma concha para extrair o máximo de líquido. Descarte os sólidos.
- 066. Volte o líquido para a panela, adicione o suco de limão e cozinhe em fogo médio-baixo por mais 5 a 10 minutos, até engrossar como mel ralo. Mexa constantemente para não queimar.
- 077. Despeje em um pote de vidro esterilizado e deixe esfriar completamente antes de tampar. Conserve na geladeira por até 1 mês.